Archives for category: Definindo ‘paisagem’

É difícil responder a uma questão aparentemente tão simples. Nesta série de posts vou dando um singelo contributo. (Espero que haja por aí alguém com tempo para ir aprofundando melhor  a coisa. Ela merece.)

Uma paisagem característica alemã, Odenwald, 2012, Pedro Duarte

Cada paisagem pode ser vista de maneiras muito diferentes por pessoas diferentes. Se tem uma clara presença física e sensível, determinada tanto pelas condições do clima, da geografia, da botânica ou da geologia – que faz com que a sua textura possa ser experienciada com os cinco sentidos do corpo humano –, a paisagem varia de acordo com os significados que lhe são atribuídos e com as formas como é mentalmente representada por aqueles que a usam. Ela dá assim aso à criação de diversos textos – “the first human texts, read before the invention of other signs and symbols” (Anne Spirn).

O Manuel e a paisagem alemã, Odenwald, 2012, Pedro Duarte

Na medida em que estes textos não são universais mas culturalmente específicos, variando em função das culturas em que estão integrados, a ambiguidade e a polémica convertem-se em duas das características determinantes da paisagem.

O Jurgen e a paisagem alemã, Odenwald, 2012, Pedro Duarte

Falmer, Brighton, 2011, Zé Reis

Boa Fé, Alentejo, 2010, A. Catarina Barata

Ciutat Vella, Barcelona, 2012, Andrea Morgenstern

Nela, vários investigadores contribuem, cada qual a partir da sua disciplina (arquitectura, urbanismo, geografia, filosofia, história de arte…), para melhor compreender o conceito de paisagem. Poderá consultá-la em formato digital aqui:

Teoría y paisaje: reflexiones desde miradas interdisciplinarias. Barcelona: Observatorio del Paisaje de Cataluña; Universidad Pompeu Fabra.

O conceito de paisagem só pôde surgir quando o Homem caçador-recolector do paleolítico deixou de viver no seio da natureza e, separando-se física e simbolicamente desta, criou as arquitecturas (que não são menos símbolos do que abrigos) onde passou a habitar.

A paisagem nasceu assim simultaneamente com a arquitectura. Foram paridas ao mesmo tempo.

A arquitectura doméstica, nascida do espaço concebido de raiz pelo Homem que (graças à presença do fogo – é de notar que lar e lareira possuem a mesma raiz) passava a estar no centro do quotidiano, era o dentro e a paisagem o fora.

Igreja de S. Francisco, Évora, 2011, Andrea Morgenstern

Enquanto vivia diluído no seu meio material envolvente, que era a sua única casa, o Homem e a natureza eram um só. Foi quando se separou desta, pela invenção da arquitectura (que deverá coincidir cronologicamente com aquela da arte, da religião e do mito), que passou a ter uma perspectiva para olhar e valorizar o mundo em redor. E foi graças a essa nova perspectiva que passou a existir uma nova exterioridade, a paisagem.

Igreja de S. Francisco, Évora, 2011, Andrea Morgenstern

A paisagem começa, pois, onde acaba o dentro da arquitectura. Ela é, por definição, um fora, do qual, por causa do seu valor simbólico, depende fortemente toda a vida social, cultural, política e religiosa do Homem – isto porque a paisagem nunca é neutra.

Amplas vistas sobre a paisagem em Falmer, Brighton (Inglaterra), 2011, José Reis

‘Paisagem’ é um conceito fértil porque, quando o manuseamos, deixa-nos quase sempre a reflectir sobre noções que doutra forma (talvez) não abordaríamos. Efectivamente, por trás da ‘paisagem’, em que se detêm, talvez mais do que quaisquer outros, paisagistas, antropólogos, geógrafos e arqueólogos (e que lástima que – não falando aqui dos arquitectos contemporâneos – por exemplo os psicólogos, com as devidas excepções, não tenham ainda percebido a importância do estudo da paisagem para o conhecimento da psique humana), há uma diversidade de noções/conceitos/temáticas de que apenas nos aproximamos quando tentamos entender o que é afinal a paisagem.

Uma dessas noções é a de ‘pausa‘.

Amplas vistas sobre uma paisagem suíça, Berna, 2005(?), Joan Villaplana

Da óptica de quem viaja num TGV ou numa auto-estrada, dificilmente a paisagem se manifesta enquanto entidade à parte, horizonte material estimulante para os cinco sentidos, para a construção da memória, da identidade, do imaginário colectivo, da fantasia, da religião, da subjectividade. Porque não há pausa.

E a pausa está na raiz da ideia de paisagem. O movimento perpétuo dispensa paisagens; o ‘espaço’ (uniforme, abstracto, homogéneo, unívoco) é-lhe suficiente. Caracterizada pela pluralidade e pela ambiguidade, cada paisagem corresponde a uma construção cultural que varia conforme os olhos, os usos e as crenças de quem a frequenta, existindo por conseguinte múltiplas formas de a ler, usar e representar.

É a pausa, suspensão de todo o movimento, que torna possíveis esses usos, leituras e representações. Uma época ávida de espectáculos contínuos dá-se por conseguinte mal com as pausas, os silêncios, as suspensões, sem os quais não poderão existir paisagens.

Nem lugares, mas isso é para outra conversa.

Ninhos de cegonhas, à beira da estrada para Lavre, Montemor-o-Novo, 2011, Pedro Duarte

 

A paisagem é o mundo transformado pelo homem; física e simbolicamente.

É o mundo apropriado pela cultura, criado por ela, porque inscrito nas esferas da técnica, da cultura material, da memória colectiva, da pintura, da literatura, da religião, do mito, dos contos infantis, enfim em todas as esferas que constituem e dão existência àquilo a que na antropologia se chama cultura.

É por isso que o fim da(s) cultura(s) coloca em risco a existência da paisagem – abrindo caminho ao espaço único e homogéneo do capital, que doravante domina a geografia global.

Relativamente à noção de lugar, o Marcos (um grande abraço para ti) deixou recentemente estas palavras na caixa de comentários citada, que me poderiam servir de inspiração para dar continuidade à série interminável de posts sobre a fenomenologia da paisagem:

“De certa maneira, todo o espaço só se converte num ‘lugar’ mediante essa ocupação integrada, como dizes. Num lugar, quer dizer, num micromundo único, vivo, com alma e sentido e distância e proximidade. Um ‘aqui’ que não existe em mais sítio nenhum, um ‘aqui’ que se funde no ‘agora’ que somos.” (o sublinhado é meu, as palavras do Marcos, a 21 de Maio)

Palco de experiências, vivências e ocorrências, o lugar deriva da humanização de uma parcela perfeitamente delimitada de espaço. Neste processo em que, ao projectarem sobre fragmentos do espaço a sua existência, as sociedades humanas criam lugares, esse espaço dota-se de atributos seus: personalidade, presença, identidade, afectividade.

Praça em Hospitalet, Barcelona, 2002, Joan Villaplana

O espaço é então aberto à experiência humana – à sensação e ao pensamento. É aberto ao confronto com o único animal que não se limita a adaptar-se a ele tal como a natureza lho apresenta, mas a transformá-lo, a (re)criá-lo, nele projectando os seus desejos, os seus sonhos, as suas utopias. Como relatava num ensaio que ficou célebre o historiador das religiões Mircea Eliade:

“O povoamento de uma nova região, desconhecida e inculta, equivale a um acto de criação (…): a transformação do caos em Cosmos pelo acto divino da Criação. (…) Os conquistadores espanhóis e portugueses apropriavam-se em nome de Jesus Cristo das ilhas e continentes que descobriam e conquistavam. A instalação da Cruz equivalia a uma ‘justificação’ e à ‘consagração’ da região, a um novo ‘nascimento’, repetindo assim o baptismo (acto da criação).”

Como mostra o exemplo de Eliade, o lugar nasce da transformação do caos que reina no espaço selvagem e inculto em campo semântico, ordenado por símbolos que operam como mediadores de ideologias e como agentes de socialização e de reprodução cultural. Ancorado em referências puramente simbólicas, o homem torna-se capaz de se integrar num meio hostil. É então para sentir-se em casa no mundo que ele cria os seus lugares. Por isso muitos desses lugares, “centros profundos da existência humana” na expressão do geógrafo Edward Relph, despertam-lhe sensações de pertença, de intimidade e de segurança. A organização simbólica do espaço pela criação de lugares é um dos meios que cada colectividade dispõe para constituir a sua identidade. Referências no espaço, os lugares, em torno dos quais inevitavelmente gravita a vida do homem mais arcaico ao mais moderno, são as âncoras que nos ligam ao mundo circundante, levando-nos a descobrir a sua singularidade social, emocional e simbólica, ao mesmo tempo em que nos revelam a nossa própria identidade.

Sintetizando, “o lugar”, como escrevia Lucy Lippard, “é temporal e espacial, pessoal e político. Demarcação estratificada, repleta de histórias humanas e de memórias, o lugar possui extensão assim como profundidade. Define-se por conexões, por aquilo que o circunda, que o formou, por aquilo que aí ocorreu, por aquilo que aí irá ocorrer.”

Ora, e falando agora do que a este post diz respeito, também a paisagem é temporal, pessoal e política; também ela se encontra repleta de histórias e memórias. Por isso, entendê-la é uma tarefa subjectiva por excelência. Obriga-nos a projectar memórias, histórias, conceitos, conhecimentos, ideologias, enfim, todo um volátil universo de fantasia, sobre as formas físicas, materiais, autênticas que nos envolvem.

Cemitério dos Prazeres, Lisboa, 2003, Andreia Almeida

Nesse sentido, todos temos uma palavra a dizer sobre a paisagem. E a paisagem estaria incompleta sem todas essas palavras que a nomeiam e descrevem. Sem (pelo menos uma parte d’) estas, aquela não existiria sequer; haveria apenas, em seu lugar, o espaço abstracto, indiferenciado, neutro (o espaço que um astronauta americano ou chinês encontrará amanhã na superfície de um outro planeta). Mas, a partir do momento em que as nossas palavras penetrassem esse espaço, ele perderia a sua neutralidade, a sua abstracção; e tornar-se-ia concreto, valorizado, significante; tornar-se-ia paisagem.

Paisagem é um conceito para não-matemáticos, para não-geómetras e, fundamentalmente, para não-economistas – e é uma das grandes calamidades do nosso tempo o facto de serem justamente os economistas a definir todos os seus contornos; os economistas substituem a paisagem pelo espaço do capital, dos investidores, da especulação, da mercadoria, enfim, por um espaço que não necessita de habitantes, de utentes, de mentalidades, de valores, de significados, de memórias, de passado; um espaço que já não é, por isso, exactamente uma paisagem. 

Paisagem é um conceito para psicólogos – outra das calamidades actuais reside no facto de os psicólogos ainda não terem percebido a importância da paisagem para entender o homem que julgam conhecer; para eles o homem vive fora das materialidades do mundo; para a esmagadora maioria de psicólogos, o ser-no-mundo de Heidegger é um conceito totalmente desconhecido. (Afinal, alguém já ouviu a palavra paisagem vinda da boca de algum psicólogo?)

Foto da colecção 'Playas', Punta del Este (Uruguai), 2006-8, Martin Parr

Há mil formas de apreciar uma paisagem. Mas as melhores são aquelas onde empregamos toda a nossa aparelhagem sensorial. Mesmo quando empregamos apenas uma fracção do nosso potencial sensorial para experienciar a paisagem, como quando dormitamos na praia, debaixo do calor agreste do Sol, ao som do relato do Peñarol contra o Nacional de Montevideo, sentimos de algum modo o palpitar da paisagem, no murmúrio persistente e tranquilizador do mar ou no som de alguém que caminha pela areia, desenhando trilhos no solo, mesmo ao nosso lado.

Se é verdade que ainda hoje se encontram autores que concebem a paisagem como o produto de processos naturais, deve referir-se que os autores que, durante as últimas décadas, mais influenciaram os campos da geografia (Jackson, Cosgrove, Daniels), da antropologia (Ingold, Bender), da história das religiões (Eliade), da arqueologia (Tilley, Darvill, Edmonds, Thomas), da história de arte (Gombrich) e da arquitectura paisagista (Girot, Claramunt, Clément) optaram por colocar a ênfase na paisagem enquanto conceito cultural e social, sensível ao curso da história.

Em palavras de Marc Claramunt:

“A paisagem não é a natureza porque ela é sempre o resultado de uma transformação que acumula os sinais da própria história. A paisagem é um projecto, uma criação que se refere sempre ao habitat humano.”