Archives for category: Globalização

Orlando Ribeiro escrevia com genialidade, numa das mais belas passagens de Geografia e Civilização, a propósito de um dos últimos artesãos alentejanos que ainda fabricava talhas de barro para armazenar vinho, numa altura (1960) em que já praticamente não havia compradores para estas admiráveis vasilhas:

“… fala com entusiasmo  do trabalho e a melancolia de quem vê acabar consigo uma ‘arte’ que serviu com habilidade e com amor. Este sentimento, tão vivaz no artesanato tradicional, não se encontra nos operários que executam, com gestos monótonos e mecânicos, as tarefas das indústrias modernas. Com a morte daqueles ofícios, que se tornam antieconómicos pela concorrência delas, desaparecem valores humanos que ninguém cuida em preservar ou substituir.

Orlando Ribeiro, in Geografia e Civilização – Temas Portugueses

Fábrica da Nike, China

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Vilamoura, Algarve, foto promocional

Um artigo do jornal Público revelava hoje, com despudorado detalhe, num texto assinado por Andreia Marques Pereira, os Segredos da costa alentejana, “um dos últimos refúgios europeus”. Imediatamente pensei: será que estes palhaços dos média não se dão conta de que um segredo, uma vez publicado (reproduzido através de milhares de cópias), se dilui, se desfaz, caminha a passos largos para a sua extinção? E aquilo que se encontrava conservado, mantido à margem do espectáculo, é subitamente devassado pelas águas furiosas e devastadoras do grande rio da mercantilização e do consumo…

A jornalista do Público, que (para simplificar os passeios dos seus milhares de leitores) até revelou as coordenadas gps de cada um dos “últimos segredos do litoral alentejano”, está consciente de que as consequências destas praias singulares ganharem muita divulgação “podem ser danosas, o fantasma do desvario algarvio“, escreve ela (e eu apenas sublinho). O seu contributo mediático concorre pois para a propagação do ‘desvario algarvio’ pelas nossas costas quase virgens.

Contributo paradoxal, de facto: enquanto celebra a beleza intacta das últimas pérolas das costas europeias, acelera a sua dilapidação. Nenhuma novidade, infelizmente: apenas mais uma irracionalidade da mediatização que, sem jamais medir as consequências arrasadoras daquilo que diz, dá o seu imprescindível contributo para a fatal e inexorável extensão do império da mercadoria, retirando das margens deste, um por um, os territórios, as paisagens e os lugares que ainda não tinham sucumbido a esta autoridade suprema.

(Será que não se arranja um trabalhinho, ou um biscate como agora se diz, para esta simpática jornalista na redacção do Lonely Planet, publicação especializada como nenhuma outra em eliminar as margens que ainda subsistem face à influência irresistível e unificadora da mercadoria?)

“A perda da qualidade, tão evidente a todos os níveis da linguagem espectacular, dos objectos que ela louva e das condutas que ela regula, não faz senão traduzir os caracteres fundamentais da produção real que repudia a realidade: a forma-mercadoria é de uma ponta a outra a igualdade consigo própria, a categoria do quantitativo. É o quantitativo que ela desenvolve, e ela não se pode desenvolver senão nele.” (in: A Sociedade do Espectáculo, Guy Debord, 1967)

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Supermercado, Évora, 2013, Pedro Duarte

Supermercado, Évora, 2013, Pedro Duarte

Desde que, na despensa de casa da minha avó, fui há uns anos descobrir um frasquinho de mel cujo rótulo informava ser composto por uma misteriosa ‘mistura de méis originários e não originários da U.E.’ que me apercebi de um facto que não creio ser menor: os supermercados vendem hoje autênticas maravilhas, cheias de “subtilezas metafísicas”, que ultrapassam largamente as capacidades cognitivas do cérebro do comum mortal.

Antes do mel ‘global’, vieram os iogurtes com pedaços de fruta ‘verdadeira’ (quer dizer que antes desses, conhecêramos apenas os iogurtes com pedaços de fruta ‘falsa’). Depois veio a carne picada ‘de vaca’ que afinal era ‘de cavalo’. A lógica deixou de conseguir justificar o que hoje, subterraneamente, se vende nas atractivas prateleiras do supermercado. A lista seria imensa: frutas brilhantes que satisfazem a vista mas raramente o paladar ou a saúde, champôs que nos fazem animais mais sedutores mas que se revelam os piores inimigos do couro cabeludo…

A Sociedade do Espectáculo” ajuda-nos a compreender, talvez como nenhum outro livro, o que realmente acontece no supermercado. O facto de muito pouca gente ter lido este livro explica, na minha opinião, porque é que tão poucos escrevem sobre esse (não-)lugar, apesar deste estar milimetricamente situado no centro da vida contemporânea, pois tudo gravita em seu torno: (a) o acesso das classes médias ao pseudo-conforto que lhes acena a publicidade, (b) a exploração das matérias-primas e das fábricas do terceiro-mundo (para que o pseudo-conforto não fique muito caro), (c) as super-competitivas multinacionais que monopolizam as produções, (d) os pequenos produtores que cessam de produzir por ‘falta de competitividade’ (vendo-se por isso obrigados a migrar para as favelas que se multiplicam pelas metrópoles do ‘terceiro mundo’), (e) as contaminações que causam, na fase de produção intensiva, as mercadorias aí vendidas, (f) o urbanismo que refaz a cidade de modo a torná-la refém do consumo…

Que os políticos jamais falem do supermercado é sintomático do desinteresse generalizado destes por subverter, transformar, questionar o mais ínfimo detalhe (social, cultural, urbanístico, ambiental…) dos nossos quotidianos, dos nossos mundos, daquilo que efectivamente se passa diariamente no nosso planeta. A política há muito que se divorciou do real. E é exactamente por causa desta brutal demissão da política de querer determinar a construção da base real da nossa pólis que o frasquinho de mel de casa da minha avó continuará a ser esquizofrenicamente ‘originário e não-originário da U.E.’.

Supermercado..., Pedro Duarte

Supermercado…, Pedro Duarte

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O espectáculo é uma permanente guerra do ópio para fazer aceitar a identificação dos bens às mercadorias; e da satisfação à sobrevivência, aumentando segundo as suas próprias leis. Mas se a sobrevivência consumível é algo que deve aumentar sempre, é porque ela não cessa de conter a privação. Se não há nenhum além para a sobrevivência aumentada, nenhum ponto onde ela poderia cessar o seu crescimento, é porque ela própria não está para além da privação, mas é sim a privação tornada mais rica.” (in: A Sociedade do Espectáculo, Guy Debord, 1967)

Triple E, o maior barco do mundo

Triple E, o maior barco do mundo

Os maiores barcos do mundo, actualmente em construção na Coreia do Sul, ultrapassarão os 400m de comprimento e servirão para transportar contentores com as mercadorias que ligam hoje o mundo. O mundo global não dispensa monstros destes. Chamam-se Maersk Triple E, serão 20 e farão a rota Ásia-Europa, irrigando os mercados ocidentais de produtos chineses.

Na aldeia onde vivo, há cinco anos ainda existiam três padarias a produzir diariamente pão, algumas a lenha. Uma estava a quarenta metros de casa. Hoje não resta nenhuma porque a ASAE prefere que os meus filhos comam Panrico ao pequeno almoço. Um vendedor muito conversador que, de tempos a tempos, costumava aparecer na sua carrinha a vender roupa ‘made in Portugal’ (por 25,00€ vendia umas calças de lã que, para lá de durarem uma eternidade, faziam com que graus negativos parecessem uma braseira) acabou com o negócio.

Na cidade mais próxima, o barbeiro onde costumava fazer a barba já fechou as portas. Nessa mesma cidade, a única pastelaria “que ainda fabrica pastéis à moda antiga”, como diz o pasteleiro, foi posta à venda. E o café centenário onde às Segundas bebo o meu poejo fecha na próxima semana; a taberna na rua ao lado com a sua atmosfera acolhedora e familiar em 2013 tão pouco terá as portas abertas.

Há todo um Portugal que silenciosamente está a desaparecer. Rapidamente. Os pequenos comerciantes com os seus antigos negócios dão lugar às multinacionais dos shoppings que os média (através de 3000 impactos publicitários diários por habitante) impõem, com as suas mercadorias ‘usa-deita-fora’ produzidas na Ásia.

 

Terraço-lounge, Beach Destination Hostel , Lisboa, 2012, Jornal Público.

Os hostels, actualmente tão em voga, têm um papel histórico a desempenhar na gentrificação do planeta. Permitem aos jovens da classe média, com aquele ar sempre leve e descontraído (de quem vive numa redoma onde não entram as tensões da história – que se traduzem em subidas de impostos e coisas dessas) e style desleixado (hoje muito apreciado: barba por fazer, I-Phone todo riscado ou telemóvel retro, ténis de marca mas sujos…), espalhar o inglês pelos quatro cantos do mundo e viajar à caça dos mais imperdíveis e desconhecidos spots que ainda existem neste seu Lonely Planet. Novas geografias são incluídas neste projecto totalitário de levar a mercantilização ao último beco do bairro mais pobre e decadente onde o inglês teima em não ser língua franca (no Rio as favelas e os seus moradores foram assimilados pelo fenómeno, para regozijo dos turistas que viram o seu território de acção alargado).

Actualmente, “o backpacker não é o típico jovem sem dinheiro, há os que podem pagar e querem um quarto privado”, explicava Dangolia Rosickaite, directora financeira dos hostels Destination (do qual faz parte o Beach Destination Hostel), ao jornalista do Público. Era algo que já suspeitávamos.

Nos dias de hoje, a mercantilização estende-se e amplifica-se: espacialmente, geograficamente, culturalmente.

Quer dizer: a sociedade do espectáculo prossegue calmamente a sua conquista planetária, como havia profetizado há tantos anos o único teorizador que soube compreender em profundidade o seu tempo (e o nosso), Guy Debord. Outros, que se seguiram ao singular pensador francês, inventaram a palavra ‘globalização’ para descrever genericamente a mesma conquista.

Foto promocional do Daintree Eco Lodge, Australia, 2012

‘Eco-turismo’ é um dos conceitos mais em voga para as elites do Ocidente, sempre em busca de novas mercadorias, capazes de despertar aventuras e emoções inusitadas. O surgimento deste conceito é revelador de que passou a ser possível, interessante e rentável aos operadores turísticos vender selvas virgens, santuários naturais e paisagens imaculadas. Enfim, passou a ser possível tudo vender neste mundo, onde apenas o que não pode ser vendido deve desaparecer. E desaparece mesmo…

Com esta extensão do espectáculo às selvas dos trópicos, os hotéis, perdão, os eco-lodges, passaram a fazer companhia à natureza selvagem, com os seus “micro screened balconies with outdoor Jacuzzis, televisions, CD players, minibars, air conditioning, wireless and dial up Internet access.”

O ‘virgem’ e o ‘autêntico’ passam assim a ser glorificados pelos promotores turísticos, que descobrem na burguesia recentemente seduzida pelas mercadorias sustentáveis a sua clientela predilecta.

“Whoever said money can’t buy happiness simply didn’t know where to go shopping.” Bo Derek.

“Shopping is better than sex.” Adrienne Gusoff

 

Há uma regra básica nos dias que correm: os que resistem à normalização em curso são espoliados, expropriados, massacrados, no limite, extintos, como sucede com a tribo documentada no vídeo; a diversidade cultural deverá restringir-se aos livros de arqueologia.

Eis um vídeo que não deveria deixar ninguém indiferente e que explica com toda a simplicidade a ligação entre todas estas palavras:

 

A história (real) documentada é toda ela uma metáfora do que significa viver em 2012.