Archives for category: Paisagens de sonho

… por jovens cansados, fartos de ser iludidos pela grande encenação democrática que, em vez de proteger a rés-pública (a coisa pública), procura abertamente aniquilá-la, destruí-la, extingui-la. ABERTAMENTE: pelo que já só não vê quem não quer.

Foi lindo ver (e dar a ver aos meus filhotes que estavam tão eufóricos como eu) ontem, 15 de Outubro, o povo tomar a escadaria do poder. Um prenúncio para algo grandioso?

Uma rua que seria igual a qualquer outra não fora a presença de um ciclista e a ausência de publicidade, Toulouse, 2009, La Depeche

 

Milho geneticamente manipulado no Jardim Botânico de Bastide, Bordeaux, 2010, Claude Petit

Para ficar feliz, não preciso de perder-me nas maravilhosas ilhas do arquipélago das Seychelles ou nos infinitos canais de Veneza. Basta-me um campo de milho geneticamente manipulado VANDALIZADO.

Escultura em frente ao hotel Burj Al Arab, Dubai, 2007, Martin Parr

Modelo hoje dominante de organização da economia, implementado em toda a extensão do planeta com a bênção sagrada de jornalistas, opinion-makers e outros comunicadores igualmente eficientes, contratados explicitamente para o defender, o neo-liberalismo é responsável pelo idílio bucólico, harmónico e pastoril em que se tornou a paisagem do mundo que habitamos.

Este idílio, do qual TODOS nos honramos de ser co-responsáveis (ainda que uns se possam gabar de ser um nadinha mais do que outros), presenteia-nos diariamente com um imenso rol de factos, acontecimentos e circunstâncias de que se podem orgulhar os nossos políticos e, fundamentalmente, quem os elegeu:

– gentrificação de velhas capitais;

– recuperação dos padrões coloniais de segregação residencial;

– favelas sem esgotos, água canalizada ou latrinas, habitadas por um sexto da humanidade, periodicamente arrasadas para dar lugar a condomínios fechados ou simplesmente a auto-estradas que permitem a quem vive nas mansões campestres aceder rapidamente ao centro da sua metrópole;

– bairros dentro de muros, vigiados dia e noite por câmaras e guardas armados até aos dentes;

– magníficos monocultivos de perder de vista, ultra-intensivos, ultra-químicos, ultra-poluídos, ultra-tudo;

– ilhas privadas;

– novas cidades de luxo com os seus majestosos ‘lifestyle centers’, réplicas dos centros históricos das cidades antigas;

– etc.

Decidi começar esta nova série – onde cantarei, se calhar mais com o recurso a fotografias do que a palavras, os lugares de sonho dos Senhores que dominam a economia e a sociedade, isto é, o momento histórico presente – com um recanto muito especial do planeta, o sumptuoso e literalmente onírico Dubai. Recanto este responsável por muitas, e não apenas uma, paisagens de sonho. Dessas que não deixam indiferentes os Cavacos Silvas e os Silvios Berlusconis tão trivialmente abundantes nesta aldeola global em que se converteu o nosso astro, que alguém um dia se lembrou de apelidar com essa palavrinha tão singela e ao mesmo tempo sublime: terra.

Terra?

Marina, Dubai, 2006, Thomas Weinberger