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Vilamoura, Algarve, foto promocional

Um artigo do jornal Público revelava hoje, com despudorado detalhe, num texto assinado por Andreia Marques Pereira, os Segredos da costa alentejana, “um dos últimos refúgios europeus”. Imediatamente pensei: será que estes palhaços dos média não se dão conta de que um segredo, uma vez publicado (reproduzido através de milhares de cópias), se dilui, se desfaz, caminha a passos largos para a sua extinção? E aquilo que se encontrava conservado, mantido à margem do espectáculo, é subitamente devassado pelas águas furiosas e devastadoras do grande rio da mercantilização e do consumo…

A jornalista do Público, que (para simplificar os passeios dos seus milhares de leitores) até revelou as coordenadas gps de cada um dos “últimos segredos do litoral alentejano”, está consciente de que as consequências destas praias singulares ganharem muita divulgação “podem ser danosas, o fantasma do desvario algarvio“, escreve ela (e eu apenas sublinho). O seu contributo mediático concorre pois para a propagação do ‘desvario algarvio’ pelas nossas costas quase virgens.

Contributo paradoxal, de facto: enquanto celebra a beleza intacta das últimas pérolas das costas europeias, acelera a sua dilapidação. Nenhuma novidade, infelizmente: apenas mais uma irracionalidade da mediatização que, sem jamais medir as consequências arrasadoras daquilo que diz, dá o seu imprescindível contributo para a fatal e inexorável extensão do império da mercadoria, retirando das margens deste, um por um, os territórios, as paisagens e os lugares que ainda não tinham sucumbido a esta autoridade suprema.

(Será que não se arranja um trabalhinho, ou um biscate como agora se diz, para esta simpática jornalista na redacção do Lonely Planet, publicação especializada como nenhuma outra em eliminar as margens que ainda subsistem face à influência irresistível e unificadora da mercadoria?)

No Pedras Salgadas Spa & Nature Park (o nome já diz muita coisa) acaba de nascer o Eco-Resort Pedras Salgadas.

Os verdadeiros amantes da natureza fetichizada, que pernoitem numa eco house do Eco-Resort (será impressão minha ou o ‘eco’ estará a ficar aqui um pouco gasto?), poderão completar esta verdadeira experiência da natureza visitando o Spa Termal de Pedras Salgadas, o Golfe Vidago Palace e o Pena Aventura Park – spa, golfe e aventura completam aqui o pacote de eco-turismo.

Eco-house vista de fora, Fernando Guerra

Eco-houses vistas de fora, Fernando Guerra

Eco-house vista de dentro, Fernando Guerra

Eco-house vista de dentro, Fernando Guerra

[Para ver o vídeo, terá de clicar primeiro em play e depois em Ver no Youtube]

Istambul é hoje a Meca de quem quer implantar bigodes. É a cirurgia estética turca a dar cartas.

Se fizer uma pesquisa pela net sobre as Pousadas de Portugal encontrará sem dificuldade inúmera propaganda publicitária a esta ‘cadeia de hotéis’ que, sendo gerida desde 2003 pelo Grupo Pestana, privatizou parte central do nosso património colectivo, que não fica acessível senão a quem disponha de pelo menos 100€ para pagar por uma dormida em época baixa.

Coloco na net um artigo, que publiquei há algum tempo no Le Monde Diplomatique, para suscitar algum contraditório sobre uma temática que não é menor e que tem conseguido esquivar-se a todas as discussões.

Para ler o artigo, clique sobre a imagem

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CHINA!

Na cidade chinesa de Anshun, conhecida apenas pelas suas cascatas únicas, projecta-se hoje a construção de raiz de uma cidade… europeia. Este novo produto turístico, que deverá atrair anualmente mais alguns milhões de turistas à cidade das cascatas, deverá estar pronto em 10 anos e toma a cidade do Porto por modelo. [Nunca é de mais recordar aqui uma das poucas definições  convincentes de ‘turismo’, esse fenómeno paradigmático da contemporaneidade e da sociedade do espectáculo, caracterizado por converter em produtos de consumo determinados recursos do território: “Subproduto da circulação das mercadorias, a circulação humana considerada como um consumo, o turismo, reduz-se fundamentalmente à distracção de ir ver o que se tornou banal” (Guy Debord)].

“The virtually unknown and landlocked city of 2.69 million people expects to complete the tourism expansion project with the help of big-ticket European investors. It hopes the project, which also includes a massive European township, would be completed in the next 10 years.” (China Daily, 9-11-2012)

Eureka! Os operadores turísticos do Alentejo acabam de descobrir um novo e fascinante produto: a nostalgia. A grande descobridora desta nova pólvora contava hoje ao Público: “Num país como Portugal que possui um número de emigrantes tão elevado, tanto de primeira como de segunda geração, é lamentável que o mercado da nostalgia não se encontre devidamente explorado”.

Ora, a sociedade do espectáculo, que já não encontra limites para o seu modus operandi, é isto mesmo – capaz de mercantilizar (converter em espectáculo) até o detalhe mais ínfimo, e à partida menos espectacularizável, da vida contemporânea.

Terraço-lounge, Beach Destination Hostel , Lisboa, 2012, Jornal Público.

Os hostels, actualmente tão em voga, têm um papel histórico a desempenhar na gentrificação do planeta. Permitem aos jovens da classe média, com aquele ar sempre leve e descontraído (de quem vive numa redoma onde não entram as tensões da história – que se traduzem em subidas de impostos e coisas dessas) e style desleixado (hoje muito apreciado: barba por fazer, I-Phone todo riscado ou telemóvel retro, ténis de marca mas sujos…), espalhar o inglês pelos quatro cantos do mundo e viajar à caça dos mais imperdíveis e desconhecidos spots que ainda existem neste seu Lonely Planet. Novas geografias são incluídas neste projecto totalitário de levar a mercantilização ao último beco do bairro mais pobre e decadente onde o inglês teima em não ser língua franca (no Rio as favelas e os seus moradores foram assimilados pelo fenómeno, para regozijo dos turistas que viram o seu território de acção alargado).

Actualmente, “o backpacker não é o típico jovem sem dinheiro, há os que podem pagar e querem um quarto privado”, explicava Dangolia Rosickaite, directora financeira dos hostels Destination (do qual faz parte o Beach Destination Hostel), ao jornalista do Público. Era algo que já suspeitávamos.

Posto de turismo, Barreiro, 2012, Pedro Duarte

O Barreiro, sempre na linha da frente. (Saint-Denis, põe-te a pau!)

Uma mini-reportagem do Le Monde conta-nos hoje esta história, bem representativa do crescimento imparável actualmente vivido pela indústria turística:

“Au pied de l’immeuble en béton, un groupe de visiteurs écoute avec attention les explications sur cette triste architecture qu’ils ont devant les yeux. Ils sont une quinzaine à regarder, perplexes, la cité du Bocage avec ses toits pointus et ses arcades, construite dans les années 1970 dans le style de l’architecte Jean Renaudie. C’est la dernière étape de leur parcours de découverte de l’Ile-Saint-Denis, une toute petite commune du “9-3” (Seine-Saint-Denis), coincée sur un bras de Seine entre Saint-Denis et Villeneuve-la-Garenne (Hauts-de-Seine). En ce dimanche de septembre, Marie-Pierre Agnès, de l’association Accueil Banlieues, s’est faite guide d’un jour pour faire découvrir sa banlieue. Une balade urbaine dans un de ces quartiers où l’on pense qu’il n’y a rien à voir.Une vingtaine de personnes se sont inscrites par Facebook ou sont arrivées avec le programme du Parisien : des curieux de tous âges venus d’Ile-de-France ou des habitants intrigués, à la recherche de l’insolite. Jacques Joly, décorateur à la retraite habitant Enghien-les-Bains (Val-d’Oise), raconte qu’il passait là tous les jours, direction Courbevoie (Hauts-de-Seine), pour éviter les embouteillages de l’autre rive : “Je ne m’y suis jamais arrêté. C’est l’occasion de mieux découvrir l’île.” Plus pragmatique, Emilie Quedeville, conseillère pénitentiaire d’insertion, veut “connaître le territoire où vivent les gens [qu’elle] suit”.

“HORS DES SENTIERS BATTUS”

Il n’y a là rien de spectaculaire, “mais c’est en dehors des sentiers battus”, explique Bernard Lefort, ingénieur de 50 ans. Un arrêt au bord du fleuve, sur les traces des mariniers qui venaient louer leurs services pour guider les péniches, le suivant au Saule fleuri, petite cité proprette avec sa curieuse cheminée d’usine de brique rouge, et une pause diapositives autour d’un verre chez Alain Vulbeau, un membre de l’association : la visite sort de l’ordinaire et enchante les touristes d’un jour. “Nous ne sommes pas des guides professionnels, mais nous connaissons nos quartiers et les gens apprécient ce contact direct”, glisse Alain Vulbeau.

Se faire les promoteurs du patrimoine local, c’est aussi la démarche des Greeters, réseau d’habitants, sur le modèle new-yorkais, qui proposent bénévolement aux touristes de visiter leur quartier. “Je montre ma ville comme si j’avais un ami qui venait à la maison”, raconte Rose Hubon, retraitée à Saint-Ouen. “Ici les gens viennent chercher des rencontres. A Paris, les seules personnes avec qui ils échangent plus de trois mots sont les hôteliers et les taxis !”, renchérit Pierre-Luc Vacher, membre du réseau à Montreuil. “Les touristes qui viennent à nos balades ont dans la tête l’image de la banlieue coupe-gorge. En partant, leur regard a changé”, remarque Bernard Meunier, Greeter à Aubervilliers. “Quand je fais le tour de La Plaine en montrant les porches où se trouvaient les relais pour chevaux avant la construction des abattoirs à La Villette, les gens ne voient plus les rues de la même façon !”, ajoute ce retraité.

Des visites comme celles-ci, il s’en développe des dizaines sur ces anciennes terres industrielles à l’image dégradée. On croise ainsi des touristes dans les cités-jardins de Stains, sur le canal de l’Ourcq à Bobigny – paradis des graffeurs –, au milieu des étals du marché de Saint-Denis, ou le long du Parcours des impressionnistes dans le parc de l’Ile-Saint-Denis. Persuadés que dans ces communes aussi se cachent des traces du passé ouvrier et des innovations architecturales, le comité départemental du tourisme, les élus et les habitants de la banlieue nord souhaitent les mettre en valeur.

Grâce aux Greeters, des particuliers qui font visiter leur ville, les touristes découvrent de nouveaux aspects de la banlieue.

Une appellation a même été déposée : “Douce banlieue”, sans plaquettes sur papier glacé ni affiches vantant le charme de ces contrées méconnues comme le font d’autres régions. “Nous essayons de raconter la banlieue, sans angélisme mais sans noircir le tableau”, explique Marie-Pierre Agnès. Rien à voir avec la nostalgie des photos sépia d’un Cartier-Bresson mais plutôt une manière de dire : “Fini le tourisme plan-plan tour Eiffel – Louvre – château de Versailles, direction le “9-3″ !” Depuis deux ans, un nouveau tourisme se développe de l’autre côté du périphérique.

Jusqu’alors, le tourisme hors Paris se limitait à quelques rares lieux classiques comme le château de Versailles, Disneyland, les puces de Saint-Ouen ou le Musée de l’air et de l’espace au Bourget. Progressivement, d’autres sites moins en vue ont réussi à percer : ce fut le cas du Stade de France, qui draine quelque 89 000 curieux en dehors des jours de match ou la basilique de Saint-Denis et sa nécropole royale qui a vu son nombre de visiteurs augmenter de 15 % entre 2009 et 2010.

Mais, plus récemment, c’est le tourisme alternatif, à la mode berlinoise, qui émerge. “Des nouveaux touristes” ou “post-touristes”, selon l’expression de Maria Gravari-Barbas, professeure de géographie physique à Paris-I, qui veulent “donner un nouveau sens à leurs voyages et qui cherchent autant les “must-see” que les lieux se référant à une histoire sociale”.

AUTHENTICITÉ

Ce n’est pas encore une vague de fond mais un vrai frémissement, que les élus locaux regardent attentivement. La fréquentation du site Internet de l’office de tourisme de Saint-Ouen aurait doublé en un an. Plus de 500 balades sont proposées par le comité départemental du 93 (www.tourisme93.com), soit quatre fois plus depuis le lancement de Douce banlieue. On peut même voir sur certaines vitrines le macaron du très branché “Lonely Planet”, qui a fait un encadré sur ces promenades en banlieue.

“Nous avons de plus en plus de demandes de visites des cités ou des anciennes usines désaffectées”, assure Samia Amrani, conseillère en séjour à l’office de tourisme de Saint-Denis. “Nous voyons se développer un tourisme différent, en dehors des standards et de l’économie marchande, avec une demande d’authenticité qui n’existait pas jusqu’alors”, remarque Daniel Orantin, directeur du comité départemental du tourisme. “Il y a quinze ans, c’était un exil de venir dans le 93. Ce n’est plus le cas. Avec la métropolisation parisienne et le début de gentrification, la frontière entre Paris et sa banlieue s’efface lentement”, explique encore Laurent Clavier professeur en BTS tourisme à Epinay-sur-Seine.

Cette poussée – encore modeste – du tourisme en banlieue est aussi la conséquence de la saturation des sites parisiens. “Le nombre de touristes intra-muros explose à tel point que les tour-operators hésitent à programmer la visite de Paris à certaines périodes”, assure Daniel Orantin qui souligne que le taux d’occupation moyen des hôtels parisiens atteint 90 %. L’hôtellerie s’est donc développée dans la petite couronne, mais surtout comme un délestage du trop-plein parisien ou pour le tourisme d’affaires. Les offres d’hôtels bon marché sont trop peu nombreuses. Et dans son schéma touristique, la communauté de communes a mis davantage l’accent sur la construction d’hôtels trois ou quatre étoiles que sur l’hébergement en chambre d’hôtes, pourtant plus adapté à ce tourisme alternatif, reconnaît une responsable de Plaine Commune.

INITIATIVES INDIVIDUELLES

Ce sont des initiatives individuelles ou associatives qui tentent de répondre à la demande de nuitées. Des habitants qui se mobilisent en réseau ou sur Internet pour montrer le coin où ils habitent. Le réseau Accueil Banlieues propose ainsi des chambres chez l’habitant à prix modeste en échange d’un engagement à passer une journée sur le territoire. Mathieu Glayman fait cela presque tous les week-ends. “Nous voulons toucher des gens qui ont des a priori négatifs sur les quartiers populaires et montrer la diversité des habitats. Leur montrer que, de l’autre côté du périph’, il n’y a pas que des barres et des tours pourries”, résume-t-il.

Il reste cependant encore quelques freins pour développer ce tourisme différent. Outre le nombre d’agressions de touristes peu prudents et les équipements qui manquent, l’accès n’est pas toujours aisé. La communauté d’agglomération tarde à investir dans la signalisation des sites et à aider les initiatives associatives. “C’est pourtant un enjeu majeur pour le territoire, une affaire d’image et un facteur d’intégration des habitants et des salariés, souligne Francis Dubrac, président de l’office de tourisme de Saint-Denis Plaine Commune. Lorsqu’on raconte à des habitants que leur quartier attire aussi les touristes, c’est une surprise et une fierté.” ”

Sylvia Zappi, Le Monde 06-10-2012