Archives for the month of: Agosto, 2013

Orlando Ribeiro escrevia com genialidade, numa das mais belas passagens de Geografia e Civilização, a propósito de um dos últimos artesãos alentejanos que ainda fabricava talhas de barro para armazenar vinho, numa altura (1960) em que já praticamente não havia compradores para estas admiráveis vasilhas:

“… fala com entusiasmo  do trabalho e a melancolia de quem vê acabar consigo uma ‘arte’ que serviu com habilidade e com amor. Este sentimento, tão vivaz no artesanato tradicional, não se encontra nos operários que executam, com gestos monótonos e mecânicos, as tarefas das indústrias modernas. Com a morte daqueles ofícios, que se tornam antieconómicos pela concorrência delas, desaparecem valores humanos que ninguém cuida em preservar ou substituir.

Orlando Ribeiro, in Geografia e Civilização – Temas Portugueses

Fábrica da Nike, China

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Praia artificial dentro do Ocean Dome, Miyazaki, Japão, 1996, Martin Parr

Ultimamente, ouvimos com insistência analistas e dirigentes políticos falarem numa coisa nova em democracia: o ‘arco da governabilidade’ (se googlarmos ‘arco da governabilidade’, por exemplo entre os anos de 2003 e 2005, não encontramos um único registo; a expressão foi acabada de inventar). Os partidos que compõem este suposto arco são-nos apresentados como os únicos em quem devemos confiar o nosso voto, por terem já demonstrado ser os únicos ‘capazes de governar’, ‘aptos ao exercício da governação’. Onde é que os portugueses já ouviram este discurso que não leva a mais nada senão à reprodução do poder?

99% dos fazedores de opinião martelam esta nova (e tão velha) máxima fascista: “sejam responsáveis, queiram ser governados apenas por quem já vos governou”.

Ao contrário do que a expressão sugere, o tão badalado ‘arco da governabilidade’ não tem 360°, nem 180°, nem 90°, nem mesmo 45°. Na verdade não se trata sequer de um arco, mas mais exactamente de um ponto. Um ponto de chegada e não de partida, a partir do qual não se chegará a outra coisa que não seja a ele próprio. Por outras palavras, o ponto não leva a lugar nenhum (que não seja ele próprio). Impõe-se desde logo uma conclusão – sobre o ponto da situação em que nos encontramos.

Esta democracia acabou por imobilizar-se em redor de um único ponto, para onde convergem os Senhores da economia, da realpolitik, da cultura, da informação, mas também das paisagens e do território, cada vez mais feudalizado como tenho procurado demonstrar neste blog.

Em 2013, tornou-se evidente que a democracia portuguesa acabou por desenvolver mecanismos muito semelhantes aos do fascismo: uma corrente política-social-económica-mediática única (sem réplica) encontrou o método e a justificação para, democraticamente, se perpetuar no poder.

Em Portugal, os partidos do arco da governabilidade materializam o pensamento único (também ele sem réplica) segundo o qual as pessoas, a cultura, a informação, as universidades, o território e as paisagens se devem submeter aos cálculos gananciosos dos donos da economia ; e, em retorno, este pensamento único (em que a economia pensa pelo conjunto da sociedade) impõe-se através dos partidos do arco da governabilidade.

Como na fotografia de Martin Parr, o poder constrói a sua encenação; ao povo pede-se (os médias pedem-lhe) que se una para pôr em cena esta nova democracia, onde lhe é dada liberdade para tudo, menos para anular o mais ínfimo detalhe da ditadura para onde foi conduzido.

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É costume chamarem ‘sociedade da informação’ ao mundo em que vivemos. Uns, a esmagadora maioria, acreditam na ‘alcunha’. Outros, talvez uma meia dúzia, riem-se; e não conseguem parar.

Ora, nesta sociedade em que a chamada ‘informação’ está de facto 24h ligada à corrente, dá-se uma circunstância caricata: assim que alguém tem em seu poder um conjunto de verdades, cuja divulgação permitiria conhecer em profundidade um qualquer detalhe do estado da economia, da política, da cultura ou da sociedade, esse perigoso alguém é perseguido pelos poderes a que se submete a dita ‘sociedade da informação’.

Edward Snowden obteve hoje asilo temporário na Rússia. Singela (e inesperada) vitória para a verdade, num mundo que a combate com afinco, desde logo em cada noticiário.

O segredo generalizado mantém-se por detrás do espectáculo, como o complemento decisivo daquilo que ele mostra e, se aprofundamos mais as coisas, como a sua mais importante operação.

O simples facto de estar a partir de agora sem réplica deu ao falso uma qualidade completamente nova. É ao mesmo tempo o verdadeiro que deixou de existir quase por todo o lado ou, no melhor caso, viu-se reduzido ao estado de uma hipótese que nunca pode ser demonstrada. O falso sem réplica acabou por fazer desaparecer a opinião pública, que de início se encontrava incapaz de se fazer ouvir; depois, rapidamente em seguida, de somente se formar. Isto acarreta evidentemente importantes consequências na política, nas ciências aplicadas, na justiça, no conhecimento artístico.

(Guy Debord no seu ‘Comentários à Sociedade do Espectáculo’ de 1988)