Archives for the month of: Agosto, 2011

Barbearia improvisada, algures no Alentejo, 2011, Pedro Duarte

É sabido que nas profundezas do país (aí mesmo onde os burocratas procuram encerrar escolas, postos médicos e transportes públicos) as estradas têm pouco trânsito, as tabernas pouco movimento, as aldeias pouco betão. 

Nessas águas muito profundas onde é cada vez mais difícil achar um português, encontramos ainda quem prefira cozinhar numa fogueira improvisada no meio da rua do que no bico de um fogão. 

Barbearia improvisada, algures no Alentejo, 2011, Pedro Duarte

E encontramos muitos outros sinais de que o país está sempre à nossa espera para nos surpreender…

Anúncios

Amplas vistas sobre a paisagem em Falmer, Brighton (Inglaterra), 2011, José Reis

‘Paisagem’ é um conceito fértil porque, quando o manuseamos, deixa-nos quase sempre a reflectir sobre noções que doutra forma (talvez) não abordaríamos. Efectivamente, por trás da ‘paisagem’, em que se detêm, talvez mais do que quaisquer outros, paisagistas, antropólogos, geógrafos e arqueólogos (e que lástima que – não falando aqui dos arquitectos contemporâneos – por exemplo os psicólogos, com as devidas excepções, não tenham ainda percebido a importância do estudo da paisagem para o conhecimento da psique humana), há uma diversidade de noções/conceitos/temáticas de que apenas nos aproximamos quando tentamos entender o que é afinal a paisagem.

Uma dessas noções é a de ‘pausa‘.

Amplas vistas sobre uma paisagem suíça, Berna, 2005(?), Joan Villaplana

Da óptica de quem viaja num TGV ou numa auto-estrada, dificilmente a paisagem se manifesta enquanto entidade à parte, horizonte material estimulante para os cinco sentidos, para a construção da memória, da identidade, do imaginário colectivo, da fantasia, da religião, da subjectividade. Porque não há pausa.

E a pausa está na raiz da ideia de paisagem. O movimento perpétuo dispensa paisagens; o ‘espaço’ (uniforme, abstracto, homogéneo, unívoco) é-lhe suficiente. Caracterizada pela pluralidade e pela ambiguidade, cada paisagem corresponde a uma construção cultural que varia conforme os olhos, os usos e as crenças de quem a frequenta, existindo por conseguinte múltiplas formas de a ler, usar e representar.

É a pausa, suspensão de todo o movimento, que torna possíveis esses usos, leituras e representações. Uma época ávida de espectáculos contínuos dá-se por conseguinte mal com as pausas, os silêncios, as suspensões, sem os quais não poderão existir paisagens.

Nem lugares, mas isso é para outra conversa.

Memorial aos soldados ingleses que lutaram nas colónias, Londres, 2011, José Reis

Memorial aos soldados ingleses que lutaram nas colónias, Londres, 2011, José Reis

Para lembrar o mau gosto fascista de uma banda esteticamente execrável, ideologicamente racista, politicamente cavaquista; espelho fiel de um povo inominável, desprezível, que nunca deixou de exaltar um passado genocida, jamais criticado.

O que diria um índio ‘brasileiro’ se ouvisse/entendesse esta letra?

O Zé Reis, com quem levo mais de uma década de discussões sobre “o materialismo”, visitou finalmente (aos anos que sonhava com o momento) a campa de um dos gigantes do pensamento crítico e da filosofia ocidental.

Túmulo de Karl Marx, Cemitério de Highgate, Londres, 2011, José Reis

Lápide no túmulo de Karl Marx, Cemitério de Highgate, Londres, 2011, José Reis

Busto de Karl Marx, Cemitério de Highgate, Londres, 2011, José Reis

Hotel de Paris, Mónaco, 2003, Joan Villaplana

Eu e o sociólogo José Borges Reis estivemos uns dias retirados do mundo para investigarmos os cada vez mais complexos e difusos itinerários do luxo em Portugal. O resultado de tão excitante investigação saiu ontem no Le Monde diplomatique, págs. 6-7.

Não tratámos o luxo na saúde, na educação, no coleccionismo de arte nem na prostituição, mas, mesmo assim, criámos uns roteiros que permitem ao cidadão comum ganhar um pouco de perspectiva sobre um tema de máxima actualidade que nunca foi alvo de qualquer investigação crítica pela letárgica imprensa portuguesa.